sexta-feira, 23 de agosto de 2019

ALEGRETES MAS POBRETES



Algumas ideias sobre o Benfica-FC Porto de sábado, que os benfiquistas aguardam com uma ânsia e um otimismo como há muito não se via. Primeiro. Parece claro que o Benfica a jogar em casa parte favorito, sobretudo se o FCP entrar como na época passada: frio, encolhido, sem capacidade para (pelo menos) tentar discutir o mando do jogo, como tantas e tantas vezes conseguiu na nova Luz.

Bruno Lage vive em estado de graça e muito tem feito por isso, já que apresenta números verdadeiramente excecionais no campeonato. Com 20 vitórias e um empate em 21 jogos e um parcial de 79-16 em golos (!!!), o homem que tem a televisão quase sempre sintonizada no Canal Panda vai passeando pela Liga a uma média de 3,76 golos por jogo, quase fazendo parecer uma brincadeira de crianças a estatística de treinadores como Vitória, Jesus, Trapattoni, Fernando Santos, Toni, Eriksson e Mortimore. 

A massa adepta encarnada vê um FC Porto titubeante, não formatado, ainda à procura de encontrar um onze e uma ideia sólida de jogo, e faz contas - muito legitimamente - a uma vitória que deixaria o maior rival a seis pontos logo à terceira jornada - uma distância de forma alguma irreversível (basta lembrar o que sucedeu na época passada), mas considerável num campeonato tão macrocéfalo como o nosso. 

Os adeptos do Porto, ainda inconsoláveis com a inenarrável eliminação da Champions às mãos do minorca russo Krasnodar - minorca quando comparado à dimensão europeia do FCP -, têm naturalmente alguns motivos para encararem o clássico com alguma apreensão - o Benfica tem golo que nunca mais acaba, um fio de jogo muito mais consolidado e um treinador aparentemente muito seguro e racional, pouco dado a estados de alma e montanhas russas emocionais. 

Mas também há um ou outro aspeto que os portistas não se esquecerão de invocar a seu favor. Um deles tem a ver com o próprio local do jogo e o bom astral do FCP ali - lembro que próprio Sérgio Conceição, antes de perder com Lage no Dragão (1-2), já tinha ganho um campeonato na Luz (cortesia de Herrera) no último minuto do jogo. 

De facto, o segundo estádio da Luz, ao contrário do antigo, tem sido território propicio aos dragões, que ali têm ganho mais vezes que perdido (6 vitórias e 6 empates contra apenas 4 derrotas em 16 visitas desde fevereiro de 2004). É evidente que a história e a estatística não marcam golos, que cada clássico começa do zero e que, neste momento, os dados são bem mais favoráveis aos campeões. 

Mas perguntem aos adeptos benfiquistas que tipo de recordações guardam dos jogos com o FCP na nova Luz… Um último aspeto, ainda sob o efeito do falhanço portista na qualificação para a Champions, uma péssima noticia para o futebol português que ainda há pouco tempo viu o Benfica, na condição de cabeça de série, completar uma fase de grupos da Champions só com derrotas. 

Estamos a perder músculo e competitividade no contexto europeu; e estamos a perder argumentos para podermos continuar a atrair jogadores com potencial dispostos a fazerem do inexistente [em termos internacionais] campeonato português uma ponte aceitável para as ligas de topo. Pensem nisto. Há seis anos e meio (janeiro 2013), o Benfica, treinado por Jorge Jesus, recebeu o FC Porto de Vítor Pereira na Luz. Foi um jogo fantástico, hiper emotivo, com futebol e artistas de primeiríssima água: empataram 2-2 com os quatro golos a surgirem nos primeiros 17 minutos. Anotem as linhas. 

Benfica: Artur; Maxi, Garay, Jardel e Melgarejo; Matic; Salvio, Enzo Pérez e Gaitán; Lima e Cardozo (ainda jogou Aimar). 

FC Porto: Helton; Danilo, Otamendi, Mangala e Alex Sandro; Fernando; Defour, Lucho Gonzalez e João Moutinho; Varela e Jackson Martinez (Izmailov ainda jogou). 

Não vou fazer comparações. As coisas são o que são. Apenas sugiro um exercício teórico: quantos dos participantes no próximo Benfica-FC Porto teriam lugar numa grande equipa europeia? 

Só vejo um a entrar de caras: Alex Telles. Com muito boa vontade, talvez Danilo e Grimaldo. 
Os outros, quantos deles endeusados por aqui!, pura e simplesmente não cabem. Façam o exercício tendo em mente as melhores equipas dos big five. É triste mas é assim. Alegretes mas cada vez mais pobretes. 
Artigo de André Pipa no Jornal «A Bola»

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